quinta-feira, 18 de março de 2010

sob pressão

de um lado a tentativa incessante de convencer personagens do falacioso teatro do qual fazem parte, mostrando-lhes que a TV que vêem não é colorida e, sim, preto e branca, tentando apresentar-lhes a mentira que é a vida e o preço que se tem de pagar para viver. do outro a constante sensação de ter que provar um mérito que talvez eu nem tenha para os próximos dos quais escohi aproximar-me, mas que não são mais próximos porque a proximidade sempre me causou ódio. porque não suporto as imperfeições e agonizo enquanto não lhes apontar, transformando seus pecados em minha histeria. do outro lado, do meu corpo, tenho o sexo que se recusa a despir-se enquanto o sol não nascer e todas as cortinas das janelas alheias não caírem, suportando a dor nos olhos que me dá quando acendem as luzes artificiais e o aperto no peito que me causam suas mãos entorpecentes. agora sou mais sentimento do que razão e sinto todo o cansaço que meus ombros, enterrados abaixo de montanhas de medo e de força, podem sentir.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

já fui idiota


há quem diga que a palavra "livro" significa exatamente algo do qual você se "livra" depois que escreve. eu, por exemplo, sempre vou me irritar com o que escrevo. pode ser logo que termino de escrever e pode ser depois de dois anos - como estou detestando agora as coisas que escrevi nesse blog ridículo - mas eu sempre vou me irritar. ainda bem, né? pior seria se eu ainda gostasse dessas baboseiras que escrevi há um tempo atrás. isso significa que, no mínimo, meu senso estético e minhas idéias mudaram (ou não). eu diria que os textos antigos são muito ruins. e que os textos recentes, minha nossa, também são muito ruins. caralho, que merda é essa que eu tou escrevendo aqui?
 

terça-feira, 10 de novembro de 2009

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

instituição




na minha vida, preciso armar bem as estruturas, colocá-las firmes e seguras, pois sou um ser altamente volúvel, fujo fácil da instituição, mesmo que eu, outrora, já a tenha virado ao avesso; mesmo aquelas as quais eu própria subverti.


a cultura cria as instituições e as instituições sustentam a cultura.



terça-feira, 6 de outubro de 2009

tempestuosa




prefiro a melancolia das tuas mãos inquietas sem saber onde repousarem. se é no bolso da calça, ou no copo descartável de cerveja que você insiste em usar, eu não sei. só sei que permanecem inquietas, exalando um fogo infernal, coisa de gente que não nasceu pra ir pra igreja. gente sem regras, mesmo. eu, por exemplo, tenho a certeza de que detesto a igreja mais do que você. mas, oras, eu já fui cristã. coisa de gente que tem regras. você, não. me impressiona e admira. me preocupa, de fato. essa tua angústia incessante, tua alma carente do que não se sabe nunca. o que diabos essa menina tem? olhos pequenos, voltados para baixo, meio triste, mas ainda com um sorriso de menina desabrochada que acabou de sair da adolescência. tão pequena e frágil, pele de boneca, rosto angelical, mas com o inferno dentro de si. o inferno, pessoal, não se enganem, mora dentro daquela menina. o inferno e todos os pecados que um carnaval pode ter. toda a obsessão e compulsão que a pós-modernidade oferece. ninguém como eu para te entender, moça. já fui anjo e já fui cão também. prefiro essa tua doidice inquietante e interessante do que a normalidade dos que nunca sofrem. mas quando estiver no auge da tua agonia insana, deita aqui no meu colo velho e rabugento, meio ineficiente, eu sei, mas que promete nunca deixar de te entender.

para Ludmila, a Gordinha, meu xodó.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

sim, eu estou viva


questionar os próprios valores, os paradigmas que norteiam nossas ações e, por conseguinte, a vida que se tem é um exercício de honestidade e crescimento. não são todas as pessoas que escolhem entrar nessa busca, pois isso nos obriga a deparar-nos com nossas próprias limitações. aliás, as pessoas que costumam fazer isso diariamente são cotidianamente propensas a uma grande desconstrução interna, não precisam escolher entrar nesse caminho, elas dormem e acordam com a idéia de que o grande dia da mudança está chegando, seja lá qual for a mudança, ela sempre vai chegar e mais de uma vez. de repente, a invalidez de idéias antigas toma conta do juízo e o sujeito é invadido por uma chuva de auto-reprovações, talvez contra sua própria vontade imediata, e então sofre. mas lá atrás ele decidiu correr esse risco. esse é o risco que, no fundo, escolhemos na tentativa de ficarmos mais próximos da nossa essência. pessoas inteligentes se permitem sofrer. mas existem aquelas que pautaram suas vidas sempre em fundamentos superficiais e momentos de "revisão" (como esse em que você se encontra) nunca chegam, não têm espaço pra isso. é quando a forma aprisiona o conteúdo. alguns limites existem para serem transpostos, pois quanto mais reflexão e mais vontade de questionar as próprias estruturas, mais íntegros serão nossos princípios. escutar você dizendo que minha presença desencadeou tudo isso em você faz-me sentir MUITO VIVA. significa que carrego em mim esse movimento veloz e por isso ando exalando energias transformadoras que ao entrar em contato com outros seres viram combustíveis potentes capazes de girar a engrenagem da vida, pois, pra mim, vida é isso: constante mudança, ressignificação. obrigada por me fazer sentir-me viva.

para Eduardo.

sábado, 8 de agosto de 2009

eu sou imoral

deixo a minha inabilidade em lidar com pessoas comuns para elas. não tenho paciência para propagandas-do-eu, por isso assumo: eu detesto vocês e o mundo. outro dia meu irmão chamou-me na mesa da cozinha para dizer que estava me achando doida. eu disse que foi o melhor elogio que ele me deu nos últimos três anos. a minha loucura tem mais razão que a sua lucidez, animal! peço licença para ser intolerante. sou intolerante com a intolerância. agora inventaram de me colocar dentro desse mundo distorcido e repugnante que as pessoas costumam chamar de trabalho. aaah, coitados, seria mais "produtivo" me deixar em casa, não adianta, eu não vou parar de questionar até ser posta pra fora. mas antes disso eu tento quebrar a mesa do chefe. um belo dia resolvi sonhar e foquei lá na frente, no horizonte, bem bonito. não esperava me deparar com a minha incapacidade de lidar com os lados. mas para quê lados se se tem um horizonte infinito? acontece que eu ando construindo um castelo e vem um medo de ele desabar. tanta coisa já desabou nessa vida. certa vez um senhor de barbas me disse que todos os castelos desabam, mas, se tiver alma, está só trocando de pele. e não ousem vir me dar "liçãozinha de vida" quando o muro estiver no chão. leiam seus livros de auto-ajuda, redijam seus artigos e assistam suas novelas, mas não levem embora o muro e a tinta pra eu pixar. faz tempo que a minha sexualidade não se resume à minha genitália. faz tempo que o mundo é mundo e todo mundo faz sexo. mas ninguém quer dar uma esmola, pô! ninguém quer lavar o próprio prato, mas todo mundo quer comer. perdoem-me, desse jeito eu não como ninguém. vou morrer solteira, sem filho, sem religião e sem carro. e reservo a caretice do meu velório ao padre pedófilo da esquina.


(deixo a minha inabilidade em lidar com pessoas comuns para elas, somente para elas)

terça-feira, 28 de julho de 2009

um sonho

acordou às dez, meio de repente, e logo tentou lembrar do sonho que acabara de ter. numa manhã nublada de domingo, o céu branco, estava bonito o dia. sim, era com ele que ela tinha sonhado. havia escrito para ele antes de dormir, deve ter sido isso. sonhou que voltara à sua casa, mas, como em todos os sonhos, a casa não era a mesma. voltara à casa dele, com cabelos curtos e uma mochila nas costas. de fato, ela cortou os cabelos no sábado, mas não ficou muito bom. ele a recebera com sorrisos, um abraço longo, e alguns beijos na superfície dos lábios - só dos lábios. passavam pelo portão e entravam num quarto para ficarem sozinhos e ela logo pôs-se a perguntar "sua mãe vem aqui?" e ele disse "quase nunca". mas ela veio. não sei por quê, mas veio.

depois de muito conversarem, ele passou um momento parado, pensando, meio indiferente a tudo, igual como ele fez naquela noite em que foram assaltados, quando ela passou uma semana em sua casa. ela nunca vai esquecer daquela semana que passaram juntos, sem que suas mães soubessem e que a fez catar seus cabelos espalhados pela casa, antes de partir, para que sua mãe, que tem mania de limpeza, não percebesse que ela esteve ali. e ele sempre monitorando os pratos que eram lavados e os pingos que caíam no chão, ele realmente tinha herdado um pouco de sua mãe. a praia, o picolé redondo de coco, o vinho, as muitas fotos tiradas.


foi muito divertido brincarem como meninos - sim, meninos - pequenos e conversarem como gente grande sobre linguística e sociologia. foi uma paixão bonita, uma grande descoberta do outro lado do mundo, vontade de ficar junto, quem sabe de construir outro mundo juntos. a sensação de chegar na casa de um quase desconhecido e colocar suas malas no canto da parede era meio estranha. o que diabos estava fazendo ali? estava se arriscando demais. arriscou-se a amar. foi por isso que derrubou seu violão no chão quando chegou, estava meio atrapalhada, meio nervosa. e amou.


amou por uns dias, o que foi suficiente para ficar por um tempo depois que partiu, mas que sobreviveu até os limites do tempo e do espaço. a lembrança ficou, a saudade, a vontade de voltar um dia, como aconteceu no sonho.

para Vinicius.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

oração pela clareza

existem algumas poucas coisas que me fazem ter medo de ficar adulta. quase sempre elas têm a ver com dinheiro e trabalho. mas o que tem me causado medo, mesmo, ultimamente, é a possibilidade de perder a clareza das coisas. é que nós temos esse poder de nos tornarmos idiotas. eu conheço adultos medíocres, adultos que se viram dentro de situações terríveis que, por erro ou inocência, eles próprios as escolheram e, por não suportarem conviver com essa escolha, acabaram por amputarem a própria consciência e percepção para se sentirem menos desconfortáveis. amputaram a própria liberdade, pois quanto menos consciência, menos liberdade. e uma vez adotando a ausência de criticidade, adeus: é mais fácil afundar nessa alienação confortante do que estimular a reflexão.

conheço adultos que escolheram a pouca consciência por não terem honestidade suficiente para se depararem com as próprias falhas ou situações que pedem esforço. como um indivíduo que defende o sistema capitalista como o mais coerente, mas a verdade é que ele sabe que nunca terá coragem de dividir seus bens. este indivíduo, então, vai aos poucos convencendo-se de sua pseudo-razão por ser incapaz de reconhecer suas limitações até que, um dia, olha a pobreza do mundo e põe a culpa no governo (ou no diabo). sim, eu descobri que alienação também pode ser uma escolha racional. mas também conheço adultos que foram subjulgados a situações tão opressoras, contra as quais não podiam lutar, que naturalmente foram tomados pela falta de clareza para amenizar o sofrimento. estes, lamento, merecem a minha compaixão.

é por isso que muitos dos grandes pensadores que a humanidade teve morreram loucos ou depressivos pois tamanho era o aprofundamento da reflexão e conhecimento do mundo feio como ele é, que suas mentes renunciaram à sanidade. não é fácil ser lúcido nesse mundo, é preciso ter muita coragem. tanto existem aqueles que optam declaradamente pela não-consciência para terem uma vida mais conveniente, como aqueles que por tanto pensarem, ficam cansados e suas mentes se tornam omissas ao real. os primeiros são os medíocres, os segundos são os loucos. estes últimos, evidentemente, merecem a minha admiração.

é, portanto, que faço a minha oração pela clareza todos os dias, exercito-a, tenho medo de perdê-la. faço questão de enxergar as coisas com o máximo de clareza possível para não correr o risco de entrar em algum buraco sem perceber e nunca mais sair. observo, analiso, concluo, reflito, desconstruo, concluo de novo, repenso, desfaço, re-significo, mesmo que no fim não sobre nada. espero que a vida não me ponha uma situação opressora o suficiente que me faça abdicar da minha consciência para sofrer menos. não, isso seria triste demais. e espero também saber a hora de parar, para não morrer louca - se bem que prefiro a loucura ao risco de mediocridade.

ou será que já estou louca? ou sofro demais para ser alguém consciente e nem tenho consciência disso? ou, então, escrevo esse texto no auge da minha mediocridade? será que um dia escolhi a alienação e desde então tudo o que fiz foi aprofundar-me nela? e essas idiotices que escrevo são o ápice da minha tentativa de auto-convencimento de uma pseudo-razão que diz que sou alguém lúcido, mas tudo não passa de uma imensa falta de coragem de me deparar com minha terrível estupidez? não sei, vou refletir sobre isso...